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Danny Heimeck

O TICO-TICO AREJADO

                                                          D.H.

No ano inteiro, meu jardim é frequentado por tico-ticos. Na primavera, eles formam casais e espalham ninhos pelas folhagens. Como se sabe, o tico-tico é um passarinho que só canta nesse período. Fiu-fiu -fiu, é o chamado que se ouve o tempo todo. E isto é tudo o que sei dos tico-ticos, não sou dado a detalhes. Mas, é claro, em tudo está presente a exceção.

Há um mês, começou a pintar no meu pedaço um tico-tico que parecia fashion. Nunca me acontecera. Me senti obrigado a observar singularidades. O primeiro que me chamou atenção foi a cantoria dele. O fiu-fiu-fiu normal do tico-tico, nessa época, são dois fius breves e um longo. Pois este faz o contrário, emite um fiu longo e dois breves. Também as passadas. Qualquer tico-tico, quando não voa, saltita para deslocar-se. Este, não. Este caminha. Num andar insinuante, com leve requebro do rabo e um olhar sempre vivo ao redor. De quebra, uma ponta de ironia no bico. Quando vai na quirera de milho, que eu espalhei no chão, escolhe sempre a parte que não tem sujeirinhas à volta. E não pica, como fazem os outros. Baixa a cabecinha, escolhe uma migalha e delicadamente a recolhe. Sai dali, e vai lavar o bico e os pezinhos no tanque, atrás da casa. Depois vai gingando até a parte mais ensolarada do gramado e completa a higiene. Fica mais de hora alisando as penas e dando bicadinhas nas unhas.

E o mais incrível: tem se aproximado de mim. Quando estou na varanda, raramente algum passarinho chega perto. Mas ele, ao contrário, todo dia se me aproxima a menos de metro. Anda para lá e para cá, naquele seu andar voluptuoso. Eu acho graça. Quer dizer, achava. Pois não pude gostar do olhar que passou a me atirar de uns tempos pra cá. E ontem, aconteceu uma.

Estava eu na poltrona da sala quando escutei um voejar. Era um pássaro que tinha entrado, atraído pela luz da lâmpada, como sempre fazem, entram e logo saem. Mas este não saiu. Adivinha quem era. Sentou na poltrona defronte à minha. Olhava para tudo com seus olhinhos invasores. De repente, ergueu as asinhas fechadas como quem ergue os ombros, e fez ui, em vez do fiu. Então me olhou, com aquela carinha só dele. Eu fiquei olhando pra ele, e ele me olhando.

— O que esse passarinho quer? — Eu disse comigo.

Sei que ninguém vai acreditar, mas ele respondeu.

— Vim te ver. Te acho tão só.

Surpreso, mas também indignado, retruquei:

— Pois você que é só, nunca te vejo enturmado. Por que não acompanhas tua turma?

Ele não me deu atenção. Ao invés, perguntou:

— O que é aquilo ali?

Ele esticava a ponta da asa para um castiçal.

— É um castiçal.

— Não, o que tem dentro.

— Uma vela.

— Pra que?

— Pra acender. Aqui toda hora falta luz.

— Sei...

Eu meio que fiquei com raiva dele, pois me pareceu reticente.

— Hein, por que não acompanhas teu grupo? — insisti.

Credo, são de uma caretice que sódisse, distribuindo seus olhares curiosos por tudo.

— Como assim?

Aí, em vez de responder, ele avançou a ponta da asa até o bico. Se eu não tivesse visto com estes meu olhos, não teria acreditado: umedeceu as peninhas e alisou o topete. Deu um salto, foi mirar-se no vidro de um quadro, e voltou. Então respondeu:

— Não acompanham os avanços.

— Que avanços?

— Ah, tu sabe, não te faz.

— Sei nada, o que é?

— Ah, não sabem nada de sentimento, sexualidade numa concepção ampla, o voo enquanto liberdade.

E eu pensando, mas será possível...

— Daonde tu veio, Tico?

— Interior de Pirulema.

— E por que saiu de lá?

— O que é aquilo ali? — Perguntou de novo sem me responder.

Ah,  isso aí é a fiação do micro e da TV.

—Tá, e como é a ponta?

— É um plug —.  Arranquei um fio e mostrei.

— Ali que tu enfia?

— Sim, Tico, pra passar energia.

— Tu sente a energia?

— Claro que não, é para o aparelho. Tu não me respondeu, por que saiu de Pirulema?

Ele me atirava uns olhos babões, como se eu é que estivesse saindo do assunto.

— Não tá gostando de mim?

Eu tive que rir.

— Mais ou menos. E Pirulema?

— Me expulsaram. Preconceito do mais bandido, questão de processo, até. Levei tanta bicada que me vim. Mas tou vendo que por aqui não é muito diferente. — Ele me olhava com um ar crítico e guloso ao mesmo tempo — acho que vou para Portodisse num tom de queixume, sempre olhando pra mim, como se eu fosse culpado de ele querer ir para a capital.

— O que tem lá de melhor?

— Pardal, né, ora — e mudando de novo: — pra que tu tem tanta caneta?

— Elas secam muito. Então tenho várias, uma delas sempre funciona.

— Sim.... —. E abriu o bico. Vi que era um riso irônico, seu olhinhos diziam tudo. Ele tava se passando.

— Que tem pardal de melhor? — repeti.

Ele fez um riso mais lânguido.

— Vai dizer que não sabe — alteou a vozinha opiniática — são mais arejados, todo amasso vale, dão prensa em tudo —. Baixou o tom para uma voz sensual, de travesseiro:até homem.

— Quem te disse?

— Ai, não te faz.

— Hein?

— Vai dizer que não sabe, amor.

— Claro que não.

— Sozinho assim, todo dia, com teu chazinho, plantando flor, cuidando da grama, e quer me dizer que tu não é do time?

Dei um pulo, agarrei ele no pescoço e peguei a bic de ponta fina.

— Olha o que vou fazer contigo.

— Não faz, amor, aí tu me estraga, me larga, me larga.

Não usei a caneta. Mas dei-lhe um apertão no pescoço que chegou a fazer creque.

— Te some, eu disse.E empurrei-o pela porta.

— Tu vais ver, vou no Instituto das Aves, vais ver!

Até acho que a ameaça dele foi só do bico pra fora, porque saiu fazendo um fiu-fiu-fiu natural, bem direitinho, pelo jeito ficou com medo. Depois me arrependi.

Mas olha só, um tico-tico!

Pensando bem, e daí? Vida feliz e cheia de asas a eles. 

 

 

SOBERBA E SUBMISSÃO

 (Danny Heimeck)

     Furando aglomeros, Antônio foi à beira da pista. Luísa dançava. Estaria enamorada?, quem era o cara? Voltou ao balcão e pegou seu drinque. Viu no meio do fervo o Leo Abe, balançando levemente um copo ao ritmo da música. Leo veio até ele.  

     Fazia mais de ano que não se viam. Conforme seu hábito, Leo dispensou prolegômenos. Nada de saudações do tipo “há quanto tempo?” ou “olá como vai?”. Nada disso. Iniciou com uma voz ciciosa, no ouvido de Antônio:

     —Pô, peguei uma gata semana passada, que vou te contar. Foi casada com o Fulano. Levei-a no Motel Bagdah. Leo narrou sua proeza com todos os pormenores. Depois de despejar no outro um solilóquio de dez minutos, exclamou:

     —Mas e tu?! — demonstrando um imenso e súbito interesse pelo amigo.

     Antônio economizou:

     —Devagar, muito devagar. Não posso me comparar contigo.

     Leo, os olhos brilhando, sorriu.

     Uns oito passos à frente, espremidas no ajuntamento, duas mulheres conversavam. Uma delas olhou por instantes na direção dos dois.

Antônio conhecia bem ao Leo. Assim, não estranhou quando ouviu dele:

     —Viste a sapecada que ela me deu?

     Leo sabia que olhares femininos eram sempre dirigidos a ele, jamais para um amigo do seu lado ou, simplesmente, para a multidão. Era um homem convicto.

     Antônio não respondeu. A noite não estava para ele. Fez um gesto ao parceiro e se afastou. Largou seu drinque no balcão. Foi até a porta e saiu.

     Caía uma garoa. Atravessou a rua e entrou no seu carro. Quando se ajeitava no assento, escutou batidinhas no vidro. Era um menino, meio índio, que oferecia rapadurinhas em celofane, um celofane batizado de chuva. Antônio irritou-se. Baixou o vidro e despejou no guri os piores esculachos. Pisou forte no acelerador.

     Tinha andado duas quadras, quando disse para si: “mas o que fizeste, animal? O pequeno estava no seu ganha-pão, lutando pela vida. Agradeça por não ter sido um assaltante. Pensando bem, foi a melhor criatura que te apareceu esta noite. E o puseste a correr. Que culpa tem ele das tuas guampas, sua anta?”. Deu meia-volta. Retornou ao estacionamento. O indiozinho já não estava. Procurou-o nas redondezas, mas sem sucesso.

     Em casa, em vez de dormir, pensava no garoto.

     Sábado seguinte, voltou ao estacionamento. Voltou na mesma hora em que o índio aparecera no carro. Esperou algum tempo. Novamente investigou nos arredores. Nada.

     No outro dia, comentou o incidente com uma amiga. Ela o surpreendeu, disse que enfrentara algo semelhante, tinha sido áspera com um deficiente que vendia bilhetes. No entanto, teve sorte de achá-lo dias depois. E aí, recompensou-o e desculpou-se.

     Antônio continuou procurando o pequeno índio.

     Por mais de meio ano, todos os sábados retornou ao estacionamento. Sem sucesso. Enfim, assim deve ser, consolou-se. No grupo dos desastrados, há os que se desculpam logo e outros que sequer pensam nisso, assim como existem os que atinam em desculpar-se com atraso, e entre estes encontram-se os que tem por castigo engolir a própria agressão.

     Desde então, passaram-se alguns anos. Contudo, ainda hoje, quando menos espera, há momentos em que Antônio sente afligi-lo, debruçada nos portais da sua mente, a cara amedrontada que ele hostilizara numa noite de chuva, e que agora, crescida, nem seria mais capaz de identificar. Mas, pensando bem, para que?, também aprendera a perguntar-se. Afinal, já era bastante maduro e lera o suficiente para saber que para bem viver é preciso esquecer um passado que pesa e faz mal, pouco importando quem seja...

 

“...Sou filho das selvas,
Nas selvas cresci;
Guerreiros, descendo
Da tribo tupi.


Da tribo pujante,
Que agora anda errante
Por fado inconstante,
Guerreiros, nasci;
Sou bravo, sou forte,
Sou filho do Norte;
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi.


Já vi cruas brigas,
De tribos imigas,
E as duras fadigas
Da guerra provei;
Nas ondas mendaces
Senti pelas faces
Os silvos fugaces
Dos ventos que amei.


Andei longes terras
Lidei cruas guerras,
Vaguei pelas serras
Dos vis Aimorés;
Vi lutas de bravos,
Vi fortes - escravos!
De estranhos ignavos
Calcados aos pés.


E os campos talados,
E os arcos quebrados,
E os piagas coitados
Já sem maracás;
E os meigos cantores,
Servindo a senhores,
Que vinham traidores,
Com mostras de paz.


Aos golpes do imigo,
Meu último amigo,
Sem lar, sem abrigo
Caiu junto a mi!
Com plácido rosto,
Sereno e composto,
O acerbo desgosto
Comigo sofri.


Meu pai a meu lado
Já cego e quebrado,
De penas ralado,
Firmava-se em mi:
Nós ambos, mesquinhos,
Por ínvios caminhos,
Cobertos d’espinhos
Chegamos aqui!...
 
Antônio Gonçalves Dias - "I-Juca Pirama"
 

MAKTUB

 (Danny Heimeck)

   Reinaldo às vezes aborrecia com seu senso crítico. Ponderava tudo, observando tanto aos outros como a si mesmo. Por essa mania, não deixava de reconhecer seu maior defeito: a acomodação.

   

   Era nos anos sessenta, advento da televisão. Um dia, eu e ele passávamos diante de uma vitrine em que havia uma tv ligada. Ele comentou: “Isso daí nunca vai entrar na minha casa”. Explicou: Tendo uma máquina dessas, não seria mais capaz de erguer-se da poltrona. Lembro a minha contestação: “É só te controlares. Essa coisa vai ser útil à comunicação e divulgação”. Mas quanto mais ele espionava vídeos, mais se convencia de que ali estava uma droga a criar dependência.

 

   Veio então a transferência dele para outra cidade. Nos distanciamos.

 

   Dez anos depois, fui transferido para lá também, e nos reencontramos.

 

   Reinaldo e André, depois do expediente, costumavam sair juntos para um cafezinho e alguma compra em loja. Passei a acompanhá-los, e formávamos um trio de vez em quando. Conversando sobre o passado, ocorreu-me de perguntar ao antigo parceiro se enfim já estava com televisão. "Não, essa jamais me pega", voltou a dizer com humor.

 

   De noite, enquanto a maioria de nós ficava em casa olhando para a telinha e comendo pipoca, Reinaldo jantava em lancheria ou restaurante. Depois, ia ao cinema ou para casa, ler e escutar rádio. Era solteiro, detalhe que talvez facilitasse esse estilo.

 

   Certo dia, no anoitecer de uma segunda-feira, quando já tomávamos o caminho do café, André surpreendeu: "Primeiro vamos na Casa do Rádio pegar a televisão do Reinaldo". André gostava de surpreender com mistérios.

 

   Acontecera assim: sexta-feira anterior, um colega circulara pelas mesas avisando que dia seguinte o pessoal do setor promoveria um jantar de confraternização no clube. Pouca gente, umas trinta pessoas. Reinaldo avisou que não iria. Achava que um solteiro destoaria entre a maioria acasalada. 

 

   No evento, encerrada a ceia, houve a rifa de uma televisão. E combinaram de inovar no sorteio, que funcionaria assim: dentro de um saquinho, seriam colocadas tiras de papel com o nome de todos os funcionários. As tiras seriam retiradas uma a uma. O prêmio caberia ao nome do último papel. 

 

   O penúltimo papel retirado foi o de André; o último, o de Reinaldo.

 

   Como explicas isso?, perguntei a ele, que era todo racional. E ele: "não sei".

 

   Arvorei-me em advogado do maligno, imaginando hipóteses: favorecimento, premiação dirigida ou coisa do tipo. Mas não faria sentido, televisão era então um produto caro e, além do que, Reinaldo não integrava a patota festeira. Ainda, na hipótese de algum compadrio, isso teria vazado, o que não ocorreu. E nada poderia ter-nos trazido explicação para o essencial: o nocaute que o prêmio veio impor à pétrea diretriz do "felizardo".

 

   Reinaldo passou a assistir televisão.

 

   Viciou-se na coisa. Olhava tudo o que aparecia na tela. Parou de ler. Pouco saía. Tornou-se quase uma extensão da poltrona, que era uma doble-flex tipo cama. Do lado, a vasilha de pipoca e o chimarrão.  

 

   Mais tarde, doou a TV da rifa para uma namorada. Mas se o fez com a intenção de recobrar seu antigo estilo, não teve êxito, pois logo comprou outro aparelho.

 

   Pareceu-me até que seu destino era ver TV. E ser doada, talvez, o destino da TV que ganhara.

 

   Encontrei-o casualmente outro dia. Me disse que tem agora uma de 42 polegadas. Encaixou-a na parede. Uma maravilha. Passa horas na poltrona. Pelo seu jeito alegre ao contar-me, nem lembra mais da repulsa que já nutriu por essa deusa. E nem eu o lembrei. Vou me meter em maktubes?...

 

PARNASO EM PROGREDIMENTO

FUNK DA SAUDADE

(MC Delé - XXI)

 

Mina quero dize pra  tu

 que se partiu antes da ora 

 ficando eu agora

nesta vida triste

 só espero que tejes bem

lá no céu onde tu iste*

que eu só tou com saudade

 das noite

 que na laje nós ficou

Mas se um dia puder eu i

aonde aí tu esta

e se os santos de aí me deixar

sacou

Vou quere te ver

 com nosso mó amor

 se é que tu não mesqueceu

e me vai querer

e se tá no teu poder

 faze alguma coisa

por mim aqui debaxo

ta ligado 

bate um lero com Deus

pra que também me leve logo

daqui pra junto

 do teus lado

paketchum, paketuka, patchokum

patchokum, potchok, tchok, tchok, tchokum

 

*licença poética

 

Soneto

   (Luís de Camões - XVI)

 

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou 
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

 

 

A Pedra

 (Danny Heimeck)

     Nos meus oito anos, do lado da minha casa no interior passava uma estradinha que ia dar nas grotas. Colonos extravagantes cruzavam ali. Além desses, apenas os familiares ou inquilinos do nosso único vizinho. Deste grupo, vejo ainda, como se me estivesse diante dos olhos, a pessoinha mais diferenciada de todas. Estatura de um metro e meio, cabelos grisalhos, feições enrugadas e uma corcova que a fazia andar de olhos no chão. Vinha sempre carregando a neta, pouco menor que eu. E a neta olhava para baixo também, a cabecinha apoiada no ombro da avó. Sempre o mesmo quadro: a menina deitada sobre a cacunda da avó, enlaçando-a no pescoço, e a avó segurando na frente as perninhas da menina.

     Da primeira vez que as vi, estranhei, a garota era muito crescida para ser carregada. Mas é que ambas andavam descalças, e o chão áspero podia ferir os pés da pequena. Passavam a cada dez dias. Representavam para mim debilidades semelhantes, uma na senectude, outra no alvor da existência. Eu tinha simpatia pelas duas, embora nenhuma falasse, e eu também não. Um dia, meu pai entrou em casa e disse "vem cá, filho, Dona Elvira vai benzer tuas verrugas". E logo vi entrar a velhinha. Dessa vez, sem a garotinha. "Tem poderes?!", indaguei-me, enquanto nos encaminhávamos para o quarto. Sentados na cama, a maguinha tomou-me as mãos e com um ramo de capim sinalizou uma cruz sobre meus dedos encaroçados. Seus lábios calados mexeram-se rapidamente por instantes. Saiu tão silenciosa como entrou. Semana seguinte eu não tinha mais verrugas. Foi minha única feiticeira de verdade. Fiquei depois sabendo que atendia adoentados no ranchinho dela.

     A duzentos metros da nossa casa, havia uma lagoa. Para se chegar lá, passava-se uma porteira no curral do vizinho, depois por um casebre. Era para esse casebre que se dirigia sempre a velhinha. Ali morava outra filha dela, casada com um empregado do meu pai, patrão de oito operários na empresinha que faliria no ano seguinte. Cem metros adiante do casebre, era o açude, que ficava entre a ferrovia e um mato nativo. Eu e meu amigo vizinho pescávamos seguido nessa lagoa, que era dos parentes dele. Um dia, voltávamos de lá quando a velhinha e a neta apareceram caminhando em nossa direção. Traziam uma bacia com roupas, iam lavá-las nas águas da beira. Dessa vez, a  menina vinha a pé. O chão era de humus macio coberto por folhas caídas. Mas casualmente vi aos meus pés uma pedrinha solitária. De brincadeira, juntei-a e a joguei para o alto. Avó e neta estavam ainda a uns quarenta metros, e agi na certeza de que não havia nenhuma chance de a pedrinha cair sobre elas. Mas os berros da menina anunciaram meu engano. Apesar de tímido e sem jeito, me encorajei e fui correndo dizer-lhes que não fizera por mal. Mas a velhinha sequer me olhou. Seu olhar e seus afagos eram todos para a inocente. Estreitava-a ao peito enquanto as faces delas se uniam e os lábios mudos da avozinha tremiam como na reza que fizera por mim, dias antes, no quarto.

     As duas pareciam um só corpo, metade choroso, metade silente. Mais do que o choro da menina, no entanto, a indiferença da senhora comigo foi o que me calou igual bofetada. Eu havia maltratado pessoas por quem nutria um afeto platônico, hostilizado familiares de um operário do meu pai e atraiçoado a santinha que me havia curado as mãos. Embora criança, eu soube fazer essa leitura. Contudo, por medo não soube confessá-la ao meu pai para que levasse minhas desculpas à dupla, que ainda hoje vagueia nas minhas retinas baças.

 

 ...diligente nos céus, sentencioso fanal descera à Terra.....

Dos seus dons, tudo se ouve, mas a voz não soa dela,

atentos olhares, de todas soleiras, por todos os cantos,

espiam entre misericórdias e temores o espectro santo,

olhares caídos, corpo doído, a vida em preces e velas. 

Mas quem não a soube merecer um dia escutou-a dizer,

delicada e muda, com uma voz que só em mim se ouvia,

se queres viver em paz, em alegria, meu pequenino ser,

Pedras, não as atires, são todas duras, talhadas ao chão,

construa com elas, mas seja amigo, entenda-lhes manias,

se jogadas, mesmo ao alto, sempre voltam, e têm direção.

 

 

Assim

(Danny Heimeck)

 

Assim era de uma expressão insignificante, utilidade quase inexistente. Assim servia somente para pintar a maneira como a ação se dá. A frase caiu solta, meio chata? Assim era recrutada e enfiada  nela. Os outros integrantes adoravam a presença da Assim, porque ela conferia-lhes valor.  Assim, agradeciam a Assim e esta sentia-se lisonjeada. Foi sentindo-se importante. Tentava namorar um ou outro elemento. Mas eles a queriam só por momentos. O sonho da Assim era ter alguém fixo, nada de volúpia. Um dia, no meio da oração, ao sentir os habituais olhares dos outros ao redor, olhares concupiscentes, babosos, Assim estava já pensando em como sair dali, quando, de repente alojou-se do seu lado um elemento que ela já tinha visto, mas de longe, não tão colado. Mesmo assim, Assim já percebera que era um tal que se adaptava a todos, sorria, dava jeitos, e no geral era bem aceito, talvez por ser bem mais jovem que ela.  Assim teve um acesso de presunção. Decidiu não olhar para o sujeitinho. Assim fechou-se. Conseguiu isso na primeira vez. Na segunda, o cara deu um encontrão nela que chegou a formar uma palavra só. Ela desvencilhou-se rápido e ficou olhando para ele. Mas ele a apreciava com um sorriso e uns olhos que brilhavam feito lua cheia. Assim não era dessas de ir na primeira. E trocou de lugar. Em segundos, o chato já estava ao seu lado.  Por que foges? disse ele, deixa eu ficar aqui, não vês que te dou força? Ora veja, simpático e petulante, disse Assim  para si. Não o enxotou nem fugiu dele, mas não lhe deu a mínima. Só quando o texto já se ia ao fim, perguntou-lhe: quem é você? Ah, até  que enfim uma palavrinha, disse ele, sou o Tipo, querida. Sempre gostei de você. Por que não fica  comigo? Podemos fazer uma  bela  dupla. Já não reparou que esses elementos que estão por aí a formar frases são de uma pobreza sem fim? O Então até que está se dando bem sozinho, mas os demais significam pouco, por mais que se amontoem, pois ninguém lhes dá idéia. E como podes ver, sou bem mais jovial e espirituoso do que Outrossim, velho insosso que até pernósticos refugam. Além desses, o que tem de presunçosos por aí!... já viste a estupidez do Comojádisse e do Nonotou? Pura ignorância. Mas nós, pelo contrário, temos vida própria reconhecida. Já pensou se nos juntássemos? Poderíamos crescer, brilhar, ninguém deixará de nos ouvir. Assim riu timidamente, o  Tipo estava certo. Casaram-se meses depois. Não houve mais frases em que os dois não comparecessem, tipo assim, como os dois principais elementos. Outrossim, que já era um semivivo, morreu de inveja. No mais, quem chiou um pouco foi o Português. Mas  alguém  dá bola pra esse velho gagá, que só não morre de todo porque o povo o vai remendando? Claro, com remendos vindos de doutores a falar 'tu fostes, tu estivestes', na mesma pose do mindinho que despega da taça para significar ‘olhem como sou chique’.

 

Língua Portuguesa

(Olavo Bilac)

 Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

 

Brux

(Danny Heimeck)

Na cidadezinha onde passei parte da adolescência, havia uns três ou quatro vagabundos que andavam pelo centro e às vezes pediam vinténs. Um deles era diferenciado. O paradeiro dele era atrás do terminal de ônibus, junto à fileira dos taxis. Passava o dia ali, sentado ou deitado, sempre nos mesmos andrajos. Mas era observado com olhares anuentes, pois  não pedia dinheiro. Parece que tinha um soldo. Não falava nem cumprimentava, no que era retribuído sem reclamos. Também não aborrecia ninguém e todos o respeitavam. Era o Brux. Intelectual, todas as manhãs era visto lendo o jornal demoradamente. De tempo em tempo, compenetrava-se em algum clássico esmaecido que lhe entregavam. Escrevia poesias no papel do pão. Raramente socorria-se de um trago. Dos seus pertences, lembro um vasto capote, uma trouxa e a canequinha onde fazia o xixi, que depois ia descarregar na sarjeta. Acerca da sua vida pregressa, corriam lendas: histórias de mulher, guerras, perdas. Mas nunca soube de ninguém que tivesse falado com o Brux. Nessa época, tão minguados quanto o número de marginais na cidadezinha eram os automóveis. Devia haver uns quinze ou vinte. E contava-se que certa vez, um desses carros, conduzido por um industrial, trafegava na rodovia em direção à serra. Ainda nos primeiros quilômetros, o motorista divisou adiante um andarilho Talvez imaginando que fosse o dia de fazer sua caridade, encostou o carro ao lado do homem. Era o Brux. E teria sucedido o breve diálogo: 

-Aonde vais Brux?

-Caxias.

Caxias situava-se a duas horas de carro.

-Queres uma carona?

E Brux, mal olhando para o ricaço:

 

-Non tenho prrressa - e seguiu andando.

 

Não Tenho Pressa

(Fernando Pessoa)

 

.......ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas, 
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra. 
Não; não sei ter pressa. 
Se estendo o braço, chego exatamente aonde o meu braço chega - 
Nem um centímetro mais longe. 
Toco só onde toco, não aonde penso. 
Só me posso sentar aonde estou. 
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras, 
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa, 
E vivemos vadios da nossa realidade. 
E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.

* * * 

O Apanhador de Desperdícios

    (Manoel de Barros)

 ...Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas
mais que a dos mísseis.
Tenho em mim
esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância
de ser feliz por isso.
Meu quintal
É maior do que o mundo...

 

Em Paz

(Amado Nervo)

 

Já bem perto do ocaso, eu te bendigo, ó Vida,

porque nunca me deste esperança mentida,

nem trabalhos injustos, nem pena imerecida.

 

Porque vejo, ao final de tão rude jornada,

que a minha sorte foi por mim mesmo traçada;

que, se extraí os doces méis ou o fel das cousas,

foi porque as adocei ou as fiz amargosas:

quando eu plantei roseiras, eu colhi sempre rosas.

 

Decerto, aos meus ardores, vai suceder o inverno:

mas tu não me disseste que maio fosse eterno!

 

Longas achei, confesso, minhas noites de penas;

mas não me prometeste noites boas, apenas,

e em troca tive algumas santamente serenas...

 

Fui amado, afagou-me o Sol. Para que mais?

Vida, nada me deves. Vida, estamos em paz!

 

* * * * * * * 

 

Danny Heimeck é cronista de longa data. Apesar do talento nato que possui para encarar idéias, pessoas e circunstâncias, seu temperamento arredio o tem mantido no anonimato. Depois de muito relutar, aquiesceu colaborar com o Portal da Unidade Divina, não só apresentando trabalhos de sua autoria quanto selecionando textos de autores consagrados.